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Idiotorial?

Transcrevo parte do editorial da revista Sábado de 13 de Janeiro de 2011 (o bold é meu):

"O presidente da Câmara Municipal de Lisboa continua a sua guerra santa contra os carros na cidade. Agora, decidiu apertar as regras sobre o estacionamento nas principais artérias de Lisboa, onde exitem comércio e serviços. Isso é feito de três formas. A primeira, claro, é um aumento de preço das tarifas, que sobem 5%. A segunda é uma maior fiscalização por parte da EMEL - não para impedir a acção dos "arrumadores", que cobram dinheiro por serviços inexistentes, num negócio paralelo e ilegal promovido pelas acções da própria Câmara, mas para multar os automobilistas. A terceira é a diminuição do tempo de estacionamento permitido, que passa a ser de apenas duas horas.
Na cabeça de António Costa, esta é uma forma de combater os terríveis malandros que vão de carro para o emprego em vez de usarem os maravilhosos, confortáveis e seguros transportes públicos que todas as pessoas que trabalham em Lisboa têm ao dispor. Esquece, porém, aqueles que pretendam, simplesmente, almoçar durante mais de duas horas num restaurante da cidade. Ou aqueles que tenham uma consulta médica nessas zonas da cidade. Quer dizer, na realidade, o presidente da Câmara não se esquece deles. Simplesmente, acha que tornar as suas vidas mais fáceis é bem menos importante do que sentir que está a salvar o planeta."
Até me custa comentar. Em pleno 2011, um editor de uma revista europeia a escrever isto.
- Aparentemente compara a limitação da circulação de automóveis numa cidade a uma guerra santa. As cruzadas passaram da terra santa para as capitais europeias.
- A EMEL existe para fiscalizar "arrumadores" não para fiscalizar estacionamentos ilícitos.
- Aparentemente conhece os nossos transportes públicos (ou não).
- Defende que não pagar estacionamento enquanto se almoça durante mais de duas horas é um direito.
- Ainda pensa que a limitação de entrada de automóveis numa cidade é por questões ecológicas... :os
- E pior: que o conforto é mais importante que o planeta!
enfim...

Fujam deles...


Uso da terra

Em Linda-a-Velha existiam umas hortas urbanas na enconsta direita de quem subia vindo do Junça (Algés). Estes terrenos pertencentes à Marinha estavam sem uso faz tempo e os locais foram usufruindo da terra para produzir algumas hortaliças, alguns frutos e outros produtos. Concerteza que ajudava na economia familiar, dava para dar uso ao corpo e descansar a alma de uma população mais envelhecida, imigrante do campo para a cidade. A terra no papel era de uns, na realidade era de quem a trabalhava, e a mantinha produtiva e viva. Não obstante a eterna vontade de vedar e confinar o "SEU" espaço.



No verão, a marinha portuguesa colocou um aviso. Avisava que dava até ao fim do mês para retirarem tudo o que estava naquele espaço, caso contrário seria arredado pelas poderosas máquinas.



E foi o que aconteceu. Não sei se já se adiantam os planos de construção no local (o quartel foi desmantelado) ou se tinham receio que alguém reclamasse direitos de superfície por usucapião (duvido), mas as máquinas avançaram. Mandaram tudo abaixo, transformaram pequenas construções com materiais reciclados num amontoado de lixo, bidões de armazenamento de água em farrapos de plástico, até partiram muitos galhos e algumas árvores foram arrancadas. Mas ficou lizinho!! E depois vieram com vedações...pois há que preservar a POSSE, não a terra. Pois nas primeiras chuvadas já se viu o que acontecesse à terra que é menosprezada...

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Por falar em posse. A freguesia da Cruz Quebrada-Dafundo andou a colocar uns pilaretes gigantescos e iluminados a marcar as entradas/saídas da freguesia! Mas que raio pensa esta gente?? Qual é a necessidade de "marcar o território" desta forma?? Para mostrar trabalho? Numa altura em que se dá mais importância à contenção de gastos, estoira-se dinheiro em algo tão insignificante e até saloio? Se é toponímia, mobiliário urbano, é algo da competência da Câmara e standardizado para o restante território concelhio não? Porquê algo diferente e com tanto desperdício de dinheiro, material e energia??

E AINDA POR CIMA BEM NO MEIO DE UM PASSEIO!!!

Biclas e a biblioteca de algés

Da última vez que fui à biblioteca de Algés o segurança não me deixou estacionar a bicicleta no imenso páteo exterior que esta tem. Na altura esgrimi argumentos com o segurança, fiz uma reclamação por escrito à C.M.Oeiras, da qual recebi uma resposta e basicamente o que preocupa a estes meninos é que o pessoal deixe bicicletas dias e noites inteiras presas no seu interior (!).

É por isso que quem quiser ir à biblioteca de bicicleta tem de prender lá fora...onde? há muito mobiliário urbano, pois estacionamento que é bom não existe. Os argumentos do estímulo da utilização de bicicleta pelos utilizadores da biblioteca com a existência de um estacionamento situado no páteo, exercício físico, autonomia, etc. não valem de nada. É proibido e mai nada.

Não é que ontem encontrei dentro do mesmo páteo um automóvel da Oeiras Viva com um senhor a dormir lá dentro!!! Muito bom....a bicla não pode...o carro pode...


Um pouco mais à frente, uma rua pedonal, o Largo Major Afonso Pala, que por acaso é onde o pessoal da ciclo-via.org se reúne para as suas domingadas, tem um sistema para impedir o acesso de automóveis que não sejam os que fazem cargas e descargas. São uns pilaretes que sobem e descem. Este sistema está sistematicamente avariado o que permite o acesso indiscriminado de automóveis a uma zona que se pretendia agradável. Há uns tempos, durante uma semana o sistema estava a funcionar e eu fiquei todo contente. Mas nem tempo tive de tirar umas fotos e documentar a minha alegria, pois arranjaram maneira de "remediar-se" e continuar a aceder a esta rua para estacionar...assim paro à frente da pastelaria e vou lá tomar o pequeno-almoço sem me chatear!!




Eis os pilaretes que sobem e descem bem marcados a amarelo e a cinza os estáticos. Desta vez removeram o pilarete estático que devia estar à direita na imagem e ficou resolvido! Espectáculo!

Resultado: Em vez de uma rua aprazível com cafés, bancos e comércio de bairro, temos um parque de estacionamento com cafés, bancos e comércio de bairro.....um verdadeiro BAIRRO DE LATA! ou COM lata!






Passeio Livre

Algo muito (demasiado) visto em Linda-a-Velha é o estacionamento abusivo nos passeios. Afinal eles estão lá apenas para que se estacione e não se ocupe a via, essa faixa negra sagrada. Os peões, nomeadamente aqueles com deficiências físicas ou cadeirinhas de bébés que contornem os carros.
Á porta da pastelaria do costume o pópó estaciona de rompante em cima do passeio. Existia lugar mesmo ao lado da bicla...mas estacionar legalmente e sem prejudicar o peão? para quê? Assim dou menos 3 passos. Quando lhe questiono a razão de ter feito o que fez responde-me que é "apenas para beber a bica". Mais uma vez a imagem do senhor trabalhador que não faz mal a ninguém e a do extremista que passeia de bicla e só quer chatear quem trabalha.
Uma das queixas comuns é a falta de infrastruturas (estacionamento). Imaginem se andassem a pé ou de bicla num meio completamente virado para o automóvel, esse sim com falta de infrastruturas e completamente subvertido, como seria? É tudo uma questão de valores e vontade. Mesmo sem condições é possível faz um esforço para não incomodar o mais fraco, o peão:



Acalmia de tráfego

Vamos brincar às diferenças...vejam as duas imagens abaixo e digam-me qual a diferença?





As duas imagens reportam 2 vias onde foram aplicadas medidas de acalmia de tráfego. A primeira foi feita de uma maneira mais decidida com uma chicane bem apertada e muita sinalética e a segunda é uma medida mais discreta, com àrvores desencontradas plantadas junto à berma a criar uma chicane bem menos pronunciada.

A segunda imagem é da Rua Manuel Agro-Ferreira na Costa da Caparica e a medida foi pensada pela CMAlmada com o propósito de reduzir a velocidade do tráfego automóvel nesta via de acesso à praia muito frequentada por ciclistas (é a continuação natural da rede de ciclo-vias) e por peões.


A Ana viu este vídeo no Nós por cá e apresentou-o aos demais.




Não é de espantar o desconhecimento destas medidas pelos cidadãos, e pelos vistos também já não nos espanta o mesmo desconhecimento por parte dos (alguns) jornalistas. Afinal a definição de chicane na wikipedia de língua inglesa difere e muito da mesma mas na Wiki da língua de camões.

Eu aconselho a das Livable streets....

Agora mais um joguinho das diferenças:



Eu não sei o que vocês vêem, mas aposto que os senhores da reportagem vêm:

i) o veículo eco-lógico de um senhor coitado que não tem culpa de que alguém de preferência estado ou autarquia não lhe tenha arranjado um lugar mais perto da sala e que não está a atrapalhar nenhum peão pois ele cabe NA BOA entre o carro e o muro e é o grande motor da economia e da saúde pública deste país!!!!

ii) uma árvore do "demo" causadora de acidentes horríveis e poluição extrema que ainda por cima vai conspurcar a estrada com sementes e vai chamar bicho!

onde param os peões?

Um dia destes ia a sair de casa e vejo uma senhora a atravessar a rua uns bons metros mais acima. Vinha nas calmas e perto dela estava a chegar um carro. O carro foi-se aproximando e quando estava a pouquíssimos metros apitou...mas não foi PI (aviso) foi um PIIIIIIIII...sabem, daquelas buzinadelas que até são proibidas ;o) estão a ver....

"Mas que raio, qual a razão de tamanha brutalidade sonora?" - disse

"Então, esta malta adora molengar na estrada...ia mesmo a meio...não sabe atravessar na passadeira" - resposta de um amigo meu.

Mas onde estamos a chegar? qual o lugar de um peão numa cidade? é nos micro-passeios e nas micro-passadeiras, sempre a olhar para todos os lados para não ser atropelado? é num quadradinho verde, outrora descampado que a autarquia decidiu jardinar para o gaúdio desta raça estranha, minoritária e mimada que são os peões?? sim esse bocadinho com relva e uma tabuleta "proibido pisar"!

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Em Londres, a Oxford Circus - talvez o largo do rato lá do sítio ;o) - é uma das zonas onde há mais travessias de peões, foi redesenhada. Das vezes que lá estive lembro-me das "cercas" com publicidade que impediam a livre circulação dos peões (uma técnica tb cá usada) obrigando-os a utilizar as passadeiras existentes, tudo muito regrado com alta poluição sinalética.


Continuando as excelentes políticas de redução de volume de tráfego, diminuição das velocidades praticadas pelos veículos motorizados e dar prioridade ao peão, decidiram usar o exemplo japonês de atravessamento diagonal. (para quem apenas conhece o lado orgulhoso britânico, fica a conhecer a faceta de benchmarking, de conhecer boas-práticas e aplicá-las. Conheci de perto esta prática no departamento de desenho urbano da cidade de Leicester onde realizei um projecto e recentemente o dep. de tráfego fê-lo para diminuir a sinistralidade rodoviária, copiando o exemplo da França, etc.).


Em Tóquio, Shibuya é onde existe o maior tráfego pedonal do mundo. (Imagino a condutora do carro que exempifiquei no princípio do post neste sítio!!). Na ligação do cais ferroviário para o cais fluvial do interface do Cais do Sodré, a passadeira (??) tb é bastante concorrida, sendo normalmente os ditos condutores profissionais, os taxistas os condutores que mais pressionam os peões.



Ora para gerir este tráfego todo tem de haver mestria (ao contrário das passadeiras terríficas de Lisboa onde a mortalidade deve roçar os ataques suicídas no Iraque)...


Primeiro em Oxford Circus tiveram de retirar todos os pilaretes, mobiliário urbano mal colocado, cercas publicitárias, toda a parafernália que "conduzia" o peão como gado, criando os gargalos ou "bottlenecks" nas passadeiras perpendiculares e nas entradas para o metro. Os passeios foram alargados, afinal tinham que albergar 30.000 peões em horas de ponta.



A praça transformou-se num gigantesco passeio e são os carros os intrusos (Épá..a tal condutora do carro que exempifiquei no princípio do post, já se está a benzer toda!!).

Agora é que entra a experiência Japonesa: Quando o semáforo fica vermelho, os carros param em todas as direcções e o sinal para os peões fica verde também em todas as direcções é o "pedestrian scramble". Durante 30 segundos os peões podem atravessar a praça em qq direcção, na diagonal, como desejem, em vez de terem que ficar parados e atravessar aos bochechos (O blog do menos1carro reporta bem esta questão mas não encontro esses posts). Deste modo o tráfego pedonal torna-se mais eficiente, aliviando a carga e evitando a sobrecarga.


"Se daqui até à entrada do metro são 100 metros fazendo a hipotenusa, pq tenho eu de fazer 150 metros dos catetos" - diria Pitágoras :o)

Ou como disse o mayor de Londres: "This project is a triumph for British engineering, Japanese innovation and good old fashioned common sense. The head scratching frustration caused by the previous design is over and we've brought one of the world's greatest crossroads into the twenty first century. Being able to cross in an oblique rather than a perpendicular fashion will make Oxford Circus incredibly more efficient for the millions of pedestrians and road users that use the crossing every year."

Street Liability

Em Toronto, um ciclista agarra-se ao carro (não sei se para se apoiar apenas, se para ganhar velocidade) de um suspostamente advogado famoso (ligado a direitos humanos, justiça, etc.). Sem se perceber porquê, o dito advogado "passou-se" e arrastou o ciclista empurrando-o contra pilaretes na tentativa de o afastar do seu carro. Resultado desta "raiva momentânea": o ciclista morreu e o automobilista vai preso. Podem ler o resto aqui.


Quantas pessoas conhecemos (ou nós próprios) que são calmos, mas no trânsito transformam-se? Não sei se pela frustração de uma mobilidade real distanciada da mobilidade propragandeada ou se pelo alheamento quase total dos sentidos em relação à realidade, whatever.



Mas o melhor é ler os comentários que são feitos. Sei que os comentários na internet são, muitas vezes, a distilação de raiva concentrada, potenciada pela cobardia do anonimato, mas dá para perceber um certo "desconforto" para com o ciclista. Marginalizados por um sistema demasiado "car-based", ficamos entalados entre uma visão demasiado rígida e completamente distorcida do código da estrada e uma incapacidade nata de lidar com a falta de regras. Se circulamos na estrada (que também é nossa por direito) é porque atrapalhamos o trânsito, se alguém decide ir pelo passeio ou por uma via de lazer é porque causam acidentes aos peões (até podem falar da falta de disciplina de alguns ciclistas, mas isso acontece com automobilistas, peões, etc., etc.).

A verdade é que se existe um veículo que consegue circular em quase todos os cenários, estrada, fora dela, passeios, transportes, etc., dá uma dor de cotovelo brutal! Mas o mais impressionante é que este veículo é barato e acessível a todos! Porque não tentar?



Na minha deslocação diária faço uma via em sentido contrário. Hoje fui interpelado por um senhor de idade todo revoltado. Agradeço a sua dica, pois ao contrário do exemplo em cima, pedalar costuma puxar o meu lado melhor! O senhor ia com uma criança na mão, na faixa de circulação dos carros, pois o passeio estava minado de carros estacionados (em frente a uma escola).
Mais à frente viro à direita num cruzamento com o semáforo vermelho. Sem espinhas pois o trânsito que circulava nessa altura nunca colidiria com o meu movimento. À frente outro sentido proibido. Vou deixar a minha filha ao infantário e para isso coloco a bicicleta durante 5 minutos na entrada do prédio. À porta uma confusão generalizada de carros no passeio, no meio da estrada com 4 piscas, senhoras a atravessar a estrada a correr com míudos ao colo...porque não têm sítio para estacionar mesmo em frente. O que pergunta a auxiliar toda indignada? "De quem é isto aqui? Não quero isto interrompido!". Referia-se à bicicleta, claro. Ri-me e disse que era minha. Tirei-a logo pois o engarrafamento que causava era descomunal (NOT). Está incuto no consciente das pessoas!

Se estou contente com o facto de quebrar regras de trânsito? Não, não estou, mas tenho a noção de que é tudo desenhado para uma sociedade de carros. Os sentidos únicos são promovidos para que haja mais estacionamento, para além de que se seguirmos esses sentidos damos uma volta descomunal, mais apropriada a quem tem um motor do que a quem tem de pedalar. Os semáforos (assim como as lombas) são (más) invenções para tentar regrar um trânsito causado por automóveis.

Circulação de bicicletas em vias de sentido único assim como virar à direita quando o semáforo está vermelho são alternativas já dadas em países do norte da Europa. A isto chama-se "Street Liability" e é o que não acontece por cá, onde o mais fraco (peão, depois ciclista) não é protegido e apenas tido em conta após o mais forte (o carro).


Não se pode contruir nem legislar em função desta pirâmide invertida, nem pelo facto destes serem mais. Em portugal os passeios são invadidos pelos "mais fortes", por vezes não existem ou são pouco apropriados aos "mais fracos". O meu avô que tem dificuldades motoras resigna-se a ficar por casa pois não consegue andar em certos passeios, subir as escadas e contornar todos os carros em estacionamento indevido. Isto é de país desenvolvido?

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Carril de Belém

Já passei no carril de Belém e posso dizer:
É Xtracycle Friendly


Há que ter cuidado para atinar com a roda traseira, ir devagar para não bater com a pedaleira maior, e ao descer se se vai com muito peso em cima ela pode embalar e o metal não é propriamente rugoso para o pneu agarrar, mas passou na maior!


no comments...

Hoje levei uma mega-apitadela de uma "jovem" sem razão aparente. Foi uma apitadela daquelas que nos tiram do sério, pois circulamos numa descida já perto do limite de velocidade, existe um contínuo, uma escola, e um cruzamento, mas a "donzela" decide usar a sua buzina de camião para dizer ao ciclista que ele tem de encostar para a sua tonelada de status passe sem problemas. Já não costumo ligar, mas desta vez não deu...perguntei: "o que foi?", ao que ela berra "chega-te para o lado, pah"!

Claro que 100 metros depois está parada no semáforo, paro e pergunto-lhe se valeu a pena... o que me respondeu não tem nível para entrar neste post.
Vim a pensar o resto do caminho o que deu a esta sociedade para subverter por completo esta noção da utilização do espaço público. Invertemos por completo a pirâmide da hierarquia de circulação, dando maior prioridade a quem mais prejudica. O que passa na cabeça desta gente quando "atacam" quem lhes está à frente, especialmente se este é um peão ou uma bicicleta? Porque é que estes "falsos lentos" têm de ter a via aberta se são eles quem atravanca tudo em engarrafamentos enormes?



Basta circular pelas ruas de Lisboa, pelas ruas dos seus arredores para ver altos atropelos à circulação nomeadamente causados pelo estacionamento desregrado. Mas até aqui o senso-comum já está "muito à frente"!! Num passeio na Junqueira cheio de carros estacionados, onde uma senhora a circular no passeio apitou para uma velhota que ia a circular à sua frente para se despachar havia um recado no pára-brisas do primeiro carro que dizia: "Que falta de civismo: assim trancou o acesso a todos os outros carros. Com esta falta de educação nunca avançaremos"

Para quem escreveu este recado, o facto de estarem a utilizar o único espaço onde o peão ainda pode circular não é falta de civismo....apenas quando alguém atrapalha o acesso ao seu carro é que é falta de civismo!! Afinal já é normal um carro mal estacionado e em cima do passeio!

Vinha a pensar nesta inversão de valores quando choco com o oposto: encontrei a Louise, uma simpática Canadiana de 61 anos que estava a passear de bicicleta Portugal. Estava a 2 dias de partir para as terras frias e ia aproveitar para visitar a baía do Seixal. Partilha comigo o mesmo gosto pela bicicleta e em especial a do cicloturismo. Tem uma bicla com 15 anos e aprecia-a mesmo sem suspensões e outras cenas fancys...tal como eu e a minha Timberlina X!!.

Um verdadeiro espírito livre que apareceu para iluminar o meu dia!

Obrigado Louise!

Boas práticas...bons exemplos

O Ivo mandou-me esta foto, de uma calha aplicada no viaduto que liga a praça do império ao cais fluvial de Belém. É uma operação relativamente fácil, limpa e barata de aplicar em várias escadarias...no metro por exemplo!
As rodas vão na calha e basta empurrar a ginga! PERFEITO!
Um bom exemplo do que se vai fazendo por aí em prol da utilização da bicicleta!

Estacionamento biceberg

Mais um excelente produto para o estacionamento de biclas, desta vez vindo de Espanha, o BICEBERG.



Em relação a outros que se encontram na net, este oferece um cubículo para se guardar a bicla e mais algum material do tipo mochila, capacete, etc., vejam o vídeo.



Toda a construção do biceberg é pré-fabricada, diminuindo o tempo e os custos de instalação. Para instalação no exterior pode ter um custo inicial elevado (escavação, muros de suporte, etc.) mas é um investimento no futuro, mas se for aplicado em estacionamentos subterrâneos (ocupa o lugar de 4 carros para estacionar 92 biclas BRUTAL) onde a escavação é bem menor, esse investimento inicial nem será assim tão elevado!
E é bem melhor investimento do que ciclovias!

Será que a "X" caberia neste "sarcófago"??

Entretanto lá se vai estacionando na estação fluvial do Seixal...



Leituras

Li uma coluna no DN de ontem, muito bem escrita. Falava do critério para o "risco" dos portugueses. O Português preocupa-se com os maus hábitos que sabe que lhe causarão mal num futuro mais longínquo. Deixou de fumar, tentar cortar nalgumas gorduras, a custo lá levanta o rabo para fazer algum exercício, etc., mas aquilo que está perfeitamente provado de que é BASTANTE prejudicial a curto prazo parece que tem escrito "Não ligues, tu és superior a isto, vai de cabeça!". Falava de dois exemplos: a condução perigosa e os banhos em àguas poluídas.



Isto porque no Porto retiraram a bandeira azul à praia do Homem do Leme e, segundo o autor, as pessoas entrevistadas faziam que o crédito do técnico que avaliou a qualidade da àgua fosse pelo cano abaixo após as observações atentas dos veraneantes. Um dizia que a àgua estava uma maravilha, o outro diz que nunca a viu tão boa! O que é isto comparado com um tubo de ensaio cheio de coliformes fecais? Nada...então não vê que a água está boa?



Em relação ao trânsito é exactamente a mesma coisa. O número de feridos e mortos nas estradas portuguesas aproximam-se de uma catástrofe com resultados visíveis, marcantes e friamente reais e mesmo assim continua-se a passar cartas sem muito critério, a acelerar na estrada, a beber e conduzir, a levar míudos sem cinto, a apitar que nem uns malucos, a fazer razias a peões e ciclistas, enfim...........





Também li uma entrevista ao vereador do urbanismo da CMLX que diz, e o jornal engrossa para ser utilizada como frase chamativa: "Há que tornar a utilização do carro desconfortável na cidade" - Toca a passar das palavras à prática!

Espaço público

Já faz uns meses (desde que o verão decidiu nos visitar) que o pessoal decidiu reinvindicar a rua para nós. Sem nenhum género de organização ou combinação, começámos a montar espontâneamente uma esplanada à beira da estrada, "sacrificando" um lugar de estacionamento, que é supostamente público. Sentamo-nos lá por pequenos períodos, de manhã, à hora de almoço e à tarde. É engraçado ver as reacções de quem passa. A ideia geral é de que é extremamente agradável e que assim é que deveria ser, mas também há quem ache "mal" estarmos a utilizar o espaço que "é dos carros".
É uma ideia mais que enraizada, de que o espaço alcatroado perto dos passeios é reservado ao estacionamento dos automóveis, é um direito consagrado na mente das pessoas, é um dado aquirido a partir do momento em que se compra um carro!

Hoje acharam o meu discurso "radical" por considerar que o espaço ocupado pelo automóvel equivalia ao que nós ocupamos na "esplanada ilegal". Isto porque tivémos que nos afastar para um carro sair. "Não sejas radical, então onde é que as pessoas pôem os carros??". Sim, é um problema, a colocar ANTES de comprar o dito! Isso para mim é que é radical!

O verdadeiro problema está quando não se consegue descobrir o problema! Desta forma nunca se vai resolver!

Se calhar se todos nos puséssemos assim e assim as ideias começavam a ficar um bocadinho mais no sítio não?? Uma boa ideia para matutar e assentar que isto é de todos nesses cornos! No bom sentido claro ;o)

Copenhagen em 2015

O poder autárquico de Copenhagen vai duplicar a verba gasta na melhoria (!) das confições para ciclistas na cidade. Com esta medida, pretendem em 2015 ser a cidade número 1 em "ciclabilidade" (temos que começar a inventar estes termos!) e sustentabilidade rodoviária.

Numa participação pública elaboraram esta lista com as pretensões dos seus habitantes:

"The City in 2015 - how does it look?"

A CYCLING MEKKA
Cyclists have conquered the streets
There are few accidents
There is room for both fast and slow cyclists
Cyclists get a tax break for riding
The main boulevards are now underground tunnels for cars.

INFRASTRUCTURE
Cycle tunnels under and bridges over the harbour
Bike paths all the way along the harbour, on both sides
Bike motorways straight to the city centre
Cycling allowed in all green areas (some parks are bike-free zones)
Three lane bike lanes for different speeds
Green Wave system on all traffic lights

LIFESTYLE
Trendsetting bike design
Bikes that symbolise who I am
Our City Bikes are gorgeously designed

EXPERIENCES
Beautiful routes with great views
More trees planted along bike routes
More bike events

SERVICE
Creation of service stations along bike routes where you can pump your tyres and charge bike lights
The City loans out free bikes
Free City Bikes to all Copenhageners
Free bike lights
Mandatory warning sounds on busses when turning

BEHAVIOUR
Cycling courses for locals and tourists
A city without bike locks
No bikes left behind
Everyone checks over their shoulder before turning
Cycling training tracks for kids
Everyone is friendly and smiles

PARKING
Many smart bike racks
Fantastically gorgeous bike parking
Newly-invented multistory bike parking
Bike racks with attached service centres
More covered bike racks.

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Isto para mim é simplesmente espectacular. E acredito que somos capazes de melhorar as condições para os ciclistas se nos juntarmos, se fizermos massa crítica e se estivermos mais no terreno.
Estou tentado e tenho estado a falar com amigos, em criar uma associação de "bike advocacy" como existe pelo mundo civilizado fora. Tentar arranjar um espaço físico, não só virtual, onde se pode conversar, convencer, voluntariamente arranjar bicicletas, aconselhar, enfim dar PODER a quem pretende usar a bicicleta no dia-a-dia. A minha cabeça anda a fervilhar e vou-me pôr a mexer para ver se tenho ajudas da junta de freguesia de onde vivo para montar um projecto deste género. Toda e alguma ajuda é bem-vinda.

Já é altura de começarmos a ter estas e outras preocupações:

As 11 cidades mais amigas da bicicleta no Mundo


São estas as 11 cidades mais amigas da bicicleta:

1- Amesterdão, Holanda
2- Portland, Oregon (US)
3- Copenhagen, Dinamarca
4- Boulder, Colorado (US)
5- Davis, California (US)
6- Sandnes, Noruega
7- Trondheim, Noruega
8- San Francisco, California (US)
9- Berlin, Alemanha
10- Barcelona, Espanha
11- Basel, Suíça

Quais são os critérios para se chegar a este top 11......planeadores, decisores públicos, ciclistas, peões, todos?

Os cinco "Es":

- Engenharia (infra-estruturas pró-bicicletas, como estacionamento, sinalética e vias próprias, ligação entre as vias próprias e as vias de circulação normal, etc.)
- Educação (acções educação rodoviária pró-ciclista, por parte tanto de peões, ciclistas e automobilistas)
- Enforcement (policiamento/legislação) (fiscalização do cumprimento das leis que encorajar a utilização mista das vias de circulação e leis específicas para bicicletas)
- Encorajamento (promoção da utilização da bicicleta na cidade através de campanhas)
- Evaluation & Planning (avaliação e planeamento) (sistemas de medição de sucesso de programas em curso e de planeamento futuro)

Dúvidas? Vejam mais aqui

E um vídeo bem catita:

Insólitos II

A caminho da estação fluvial um carro fez-me uma razia, mesmo à saída de uma curva e com bastante espaço para ultrapassar em segurança. Ao chegar à estação encontrei-me com o jovem e decidi meter conversa. Não tinha intuito de o provocar, mas sim aproveitar para lhe incutir algum respeito pelos ciclistas.

Eu - "Boa tarde, ali há pouco fez-me uma razia. Podia ultrapassar com espaço e evitar passar tão perto!"
Ele - "É assim: Queres andar de bicicleta não andas no meio da estrada!"
Eu, já a manjar a pinta do tipo - "o quê??!! Para já não ia a meio. Ia o mais encostado à direita sem pôr a minha segurança em risco, visto a berma estar cheia de areia. E depois, circular na faixa é uma direito que me assiste, assim como se viesse de carro!"
Ele - "Então pode ser que da próxima te passe a ferro!"
Eu, a tentar "sacar" todo o zen de dentro de mim para não lhe partir a boca - "Pela sua lógica se um condutor de camião se fartar de andar atrás de si, passa-o a ferro, não?"
Ele - "SLAM" (barulho da porta a fechar mesmo na minha cara, depois liga o carro para ter o ar condicionado ligado enquanto espera por alguém que vem no barco).

ARGH!!! Lá soltei duas asneiradas.
Épá....como é que o "shared space" sobrevive com tipos deste género a circularem com uma arma que é o carro nas mãos??


RECLAIM THE STREETS


Shared space....é possível

Quando falo do meu modo de transporte, a maior parte das pessoas elogia a bicicleta, porque faz bem à saúde, ao ambiente, à carteira (é estupidamente lógico!!). Obviamente que depois sou bombardeado com uma carrada de tretas, de que o trabalho delas é num sítio cheio de subidas, ou que têm um filho, e o fatídico: é perigoso andar na estrada.

A apreciação do espaço e o planeamento cá no nosso burgo é feito sobre o senso comum, uma versão demasiado fechada, egoísta e distorcida da realidade. Basta ver a quantidade de projectos que não são sustentáveis e que normalmente desviam ou prolongam no tempo os problemas, em vez de atacar o problema.

Em certos locais, cá dentro e lá fora, planeiam-se e realizam-se projectos que implicam transformações do espaço urbano tendo em conta várias experiências e provas dadas em vários países em oposição ao dito atrás.

Eis um vídeo sobre o conceito do shared espace. A ideia é atribuir a todos os meios de transporte a prioridade. Para circular há que "negociar" a passagem, respeitando a velocidade do mais lento. O fluxo é orgânico, vai acontecendo e tem de haver, obrigatoriamente, mais atenção por parte de quem circula (peão, ciclista, ou automobilista). Para não falar da ausência de uma panóplia brutal de sinalização veritical e horizontal que é tudo menos humano e por vezes implica uma significativa capacidade de leitura e multi-tasking inumana.
(Em Portugal isto obrigaria a uma formação dos intervenientes. Os automobilistas teriam de se aperceber que tem de circular à velocidade de "passo" e os peões que devem circular com atenção ao que os rodeia).

Na Holanda:


Aconselho a pesquisa de "Shared space" no youtube. Existem por lá vários vídeos de introdução ao conceito. Um must é também a visita a este site.